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An Average Amount of Luck
 


Em Cunha. Engraçado como eu tenho essa coisa de achar que não consigo escrever nas cidades grandes. Ora. Muito bucolismo. Muito arcadismo. Muita falta de ocupação, sendo que a pequena cidade está em mim. É sair de casa e eu acho que tenho que escrever - com coisa que não fosse em casa, sempre, que eu escrevo. Enfim. Mania de grandeza, pensando bem, porque aparece na Caras esse pessoal Chico Buarque, Paulo Coelho e Agnaldo Sylva - que escreve em Praga, Portugal, Lugar-Nenhum.

Claro que fiquei deprimidíssima, ontem: fui a Poços. É chegar lá. Pronto. Deprimo. Acontece. Espero que pare de acontecer um certo momento. Antes era a noite. Era anoitecer e eu deprimia. Hoje eu tento me ocupar enquanto escurece - vou ler, estudar, tomar banho. Prender os gatos. Arrumar os cães. Pode ser que chegue uma hora em que eu me ocupe em Poços e pare de ficar pensando no que não adianta mais pensar. Injusto.

 

Tamiris me disse que mostrou o livro pra alguém, eu senti aquela sensação estranha de novo. De vergonha, porque não ficou tão bom, porque não ficou bom em nenhum grau da escala minuciosa e milimétrica das bondades, porque alguém leu o que eu escrevi - é me ver nua, num sentido menos sexual e mais pudoroso. De acalento, porque é pra isso que se escreve, afinal, por mais que sejamos falsos. Escreve-se para alguer ler. Para o alguém dos outros, para o nosso alguém futuro cheio de julgamentos, preconceitos ou inocência. Vai ver um dia eu ainda crio coragem e abro o Word cheia de vontade, cheia de esperança, cheia de coisas bobas/boas/sem importância ou muito úteis para serem transcritas. Escrever talvez seja o que eu menos faço. E o que eu mais gosto de fazer. Minha mãe achava que eu ia ser escritora, tinha jeito pra Diplomata, deveria dar aulas um dia - mesmo dar aulas sendo uma bosta, que Arquitetura tinha muito de mim - mesmo com as minhas neuras. Sinto falta dela me dizendo que eu posso tudo que quiser ou reclamando porque eu quero ir ali ou aqui, porque sai com essa chuva, porque não fecho direito a torneira do banheiro. E parece que agora, de um jeito melancólico e insistente, eu sempre escrevo pra ela. Oh, God.

 

Estou disconexa, hoje.

 

 

E essa vontade latente de fazer tudo ao mesmo tempo?

 

 

1,2,3: Anita-salva-mundo! (com saudações para quem sabia brincar de esconde-esconde).



Escrito por Ana às 12h41
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Tirei as coisas do armário, todas as coisas. Não todas as coisas - deixei coisas o suficiente para aquecer e vestir uma pequena família de órfãos no interior da Somália. Mas eu, como órfã, me sinto no direito de deixar o guarda-roupa cheio de coisas que não servirão para ninguém, apenas para mim. Vão me aquecer e me vestir, de um jeito difícil de explicar. Bastante doloroso, também.

Acontece algo muito simples: eu quero lembrar. Eu quero o cheiro, a cor, os gostos dos dias em que ela estava aqui. Eu quero os dias em que ela estava aqui, todos eles de volta. Eu quero escrever tudo que não escrevi quando ela estava viva, dizer pra ela tudo o que eu não disse e retirar algumas coisas que eu disse, também. Eu quero de volta um tempo que já não me pertence mais, que não pertence a ninguém. Na impossibilidade do retorno, guardo fragmentos, pedaços, absurdos que despertem na minha memória as sinapses mais deliciosas de uma vida.

Morrer é aparentemente algo muito simples, um verbinho deste tamanho de reles segunda conjugação, nem irregular é. Morrer, realmente, é algo bastante regulamentado. Mas isso só nos romances. Na minha pele, a morte dela é uma espécie de ferida. Uma hepatite. Meu fígado não seria o mesmo, nunca mais, mas o problema está todo em outro órgão. Em outros órgãos. Todos eles. Por outro lado, ao contrário da hepatite, eu tenho uma coleção de boas memórias, de fatos, de histórias, de brincadeiras, bobeiras, risadas, toda sorte de coisas maravilhosamente pequenas e simples que preenchem meu espírito com uma alegria que não combina com este pesar infindável.

 

 

Ela não é uma prateleira no armário, a meia dúzia de coisas que eu quis guardar (meia dúzia para ser delicada ou compor com qualquer poesia, porque o número real de artefatos deve ultrapassar as duas dúzias com certa facilidade - mas não soa tão bonito). Ela é tudo e mais um pouco - e reconstruir o "tudo" da minha vida está sendo uma tarefa tão impossível que a única coisa que me faz ter vontade de continuar tentando é a memória dela.

Ah. Que saudade.



Escrito por Ana às 14h47
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