Me sinto triste, quase sempre. É uma tristeza inexata, porque me deixa sorrir e brincar, fazer piadas e ver vídeos de humor. Mas é uma tristeza profunda, nostálgica e melancólica, que me tira o apetite e acrescenta uma culpa latente a todos os verbos da sentença anterior. Eu não consigo dormir tranquila, não consigo dormir tranquila há meses. Eu me preocupo com o Leon e a Lua, eu me preocupo com a casa, eu me preocupo com gente que deveria estar se preocupando comigo. Eu me preocupo com tudo. Acordo, olho no espelho: meus olhos estão do tamanho do mundo, abertos, despertos, desesperados. A quase qualquer momento do dia eu poderia chorar se quisesse. É quase como fazer um daqueles leites compostos instantâneos - colocar no copo, agitar com a colher e tomar. No meu caso, basta que eu feche os olhos, pense numa frase ou numa cena e já sinto a garganta apertada. Eu achava que a essa altura as coisas estariam mais normais, eu estaria animada com o Mestrado na Grande Universidade Pública, ou empolgada em organizar as coisas para o Singular Evento de Setembro. Não. Eu estou assim, do mesmo jeito que estava há um mês atrás - ou há dois. Eu me levanto, tomo café, vejo os e-mails. Pego um livro e leio até a hora do almoço - um livro que não se relaciona sob nenhum aspecto nem com a Grande Universidade Pública e nem com o Singular Evento de Setembro. É assim. A tarde é a hora do dia em que eu consigo viver (porque já era a hora do dia em que eu estava mais distante dela, realmente). Então meus bons amigos vem pra cá, ou vamos pra algum lugar, ou eu descubro alguma coisa na internet se eles estão viajando ou ocupados. Mas a noite...À noite é meu colapso. E eu sinto vontade de morrer, um pouquinho. Mas finjo que não sinto vontade de morrer nenhuma, por alguns motivos: vontade de morrer, tanto quanto chorar, não resolve muita coisa. E ela ficaria possessa se soubesse que eu ando com vontade de morrer. Enfim. A parte de todas essas coisas, ainda tem gente que arranja mais problema pra mim. E problema é uma coisa que eu não ando precisando. Sou muito covarde, no entano, me falta a coragem de dizer para quem é de direito que eu preciso de tempo, de espaço, de paciência. Minha mãe morreu. Ora bolas. Minha mãe morreu e parece que essa frase coordena todos os atos da minha vida, desde então. Se eu comi demais, de menos, se eu lembrei ou esqueci, se eu chorei ou dei risada: minha mãe morreu. Não é uma desculpa, não é um perdão. É apenas o estímulo único, insistente e insuportável ao qual meu corpo responde com suas atitudes a todos os demais estímulos externos desse mundo. Infelizmente, secundários.
Escrito por Ana às 08h48
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