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An Average Amount of Luck
 


Bom. Basicamente é assim, quando você duvida que tem jeito da coisa ficar um pouco pior...pronto. A dúvida acaba - porque piora, claro. Eu não tenho tanto dó de mim, assim. Eu tenho é raiva de não ter coragem de falar na cara de quem merece, de mandar cair fora, se ligar, se ferrar, ver se eu estou na esquina. Oras.

 

Mas, no momento, acho que o que mais me atrapalha é essa impotência. Esse curso de merda, que eu fiz. Profissãozinha medíocre e nojenta. Ah. Quanto desprezo. Eu não sabia que conseguia ter tanto asco de uma coisa, assim - e, a "coisa, assim" em questão é minha profissão, aquilo que aparece logo depois do meu nome nos documentos oficiais (#vergonha). Porque, aparentemente, o que importa é se o móvel da gente é assinado, se a casa da gente é bonita, se a churrasqueira foi bem planejada. Graaaaande importância. Acho que nós vamos mudar o mundo, sabe? (ironic mode on). Acho que nós vamos resolver o problema da nova ordem. Com casinhas bonitinhas, cerquinhas pintadas, graminhas verdejantes e pontes estaiadas. Vamos. Vamos resolver o problema dos nossos netos com telhados verdes e casas de taipa, vamos tornar nossa cidade uma cidade digna com um traçadinho que vai virar boca-de-fumo na semana depois da inauguração... Ah. Que beleza. Que coisa mais gratificante. Ver como o que eu fiz é algo importante! Como eu sou relevante pro mundo! (ironic mode off).


E olha que eu nem me importo tanto com o mundo, assim. Vamos, sejamos honestos, não sei você, mas eu me importo muito mais comigo. "Credo, que egoísmo!" - enfim, é assim que o mundo funciona. Graças ao egoísmo. Se a gente achasse mais importante ser coletivo do que ser individual, provavelmente você chamaria as criancinhas que moram na rua pra morar com você no seu apartamento (não que eu não me importe com as crianças na rua, eu me importo!, talvez mais do que o resto do mundo com a sua hipocrisia). Continuando, eu nem me importo tanto assim, não quero gravar meu nome na história, eu não quero mudar o mundo, o mundo está bem, thankyou very much, eu não quero revolucionar o sistema, eu não derrubar o neoimperialismo, eu não quero nada. Eu só quero sossego. Mas gostaria de ter a leve sensação de que o que eu faço, PROFISSIONALMENTE, não é essa coisa irrelevante e asquerosa que ela se tornou. Me dá coceira só de pensar, e eu me odeio por um segundo quando lembro do que decidi fazer da minha vida profissional.

 

 

 

Como disse o Rafael, por isso é que eu tenho que ir dar aula, mesmo.



Escrito por Ana às 15h35
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Primeiro dia das mães sem mãe: sucks.

 

As pessoas se desejando Feliz Dia Das Mães na rua, no ônibus, na porcaria da padaria. Enfim. Uó.Eu costumava gostar de dia das mães - esse ano, not so much. Fiquei triste, depressiva, pensando que merda de dia só pra fazer quem tem mãe sair pra comprar um presente e quem não tem mãe ficar pra baixo por causa disso. Só pra isso que serve. Porque o pessoal que tem mãe não está muito aí - pra falar a verdade, a esmagadora maioria das pessoas a minha volta nem está perto das suas mães (vivas, by-the-way), nesse dia.

Eu gostava. Parava perto da minha mãe e dizia umas coisinhas bregas e verdadeiras pra ela. Que ela era (é!) uma mãezona, que eu a amo mais que tudo, que ela é um exemplo pra mim de mulher, de mãe, de ser humano. Enfim. Eu dizia essas coisas pra ela, a gente ia no Pampa comer (ou no Pingão, ou no Caipirão, ou no Pietro - ou no E&E se estávamos pobres. Ou eu fazia uma lasanha, um strogonofe, alguma outra coisa com poucas chances de dar muito certo, mas nenhuma chance de dar totalmente errado). Senti falta de falar isso pra você, esse ano, mãe, então vai por aqui, mesmo. Não ficaram muitas outras opções de meios disponíveis para te dizer isso...que eu sou louca por você e todos os etcs.

 

Falta um mês pro meu anivesário, mais ou menos. O primeiro aniversário da minha vida sem a lasanha dela, sem a torta de morango dela, sem ela me dizendo que não teve tempo de me comprar um presente, sem ela.

 

Sabe quando você percebe que, por mais que tente fingir que as coisas estão voltando ao normal, será tudo anormal para sempre? Pois é.

Merda.



Escrito por Ana às 20h10
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A gente devia ganhar dinheiro pra casar, dá muito trabalho. Dá mais trabalho que o trabalho - mas também dá muito mais prazer. As pessoas te perguntam coisas muito complexas, você surta por alguns instantes...Daí você vai em uma degustação, vê as mesas arrumadas, vê a decoração e pensa: "Puxa! Eu estou casando!". É incrível. Do estado "eu quero sumir" e o clássico "pare o mundo que eu quero descer" para "amo muito tudo isso" e "meu Deus, como eu sou feliz assim!". Enfim. Um caso de extremos.

 

O que eu acho mais engraçado é o fato de, aparentemente, o casamento precisar de uma cor. Tipo escola de samba, sabe? Acho muito esquisito. Tem que ter "uma cor". Eu não tenho cor. Estou relutante a escolher uma cor. A breguice da breguice. Vamos ver quanto tempo vamos conseguir adiar a escolha da cor - ou, principalmente, se eu vou conseguir burlar esta parte do protocolo.

 

 

Amanhã vou ver o vestido. Mas eu ainda quero emagrecer para o casamento. E que mulher não quer emagrecer para o casamento? ¬¬ Ora, isso faz parte de todo o evento. Parte do protocolo.

Acho que vou ser uma noiva clássica, sabe? Clássico contemporâneo. Não tenho vocação para vestido "bolo de noiva", mas também não espere que eu incorpore o contemporâneo e decida ir num vestido étnico parao altar. Vou ficar com aquela coisa milimalista e elegante, mesmo. O meio termo do meio termo, a comprovação da minha (adorável) covardia.

 

Esqueci de carregar o celular. Tem que ler os textos de cultura contempoânea para terça-feira. Provavelmente, no meio da aula, meu pensamento estará dividido entre Morin, o pensamento complexo e o preocupante fato de ainda não ter fechado a lista de convidados e nem ter pesquisado opções decoração para a igreja. Oh, céus.



Escrito por Ana às 22h08
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Começaram as aulas. Eu saí de São José pesando 25 quilos a mais, pensando porque fui me enfiar num negócios desses. Fiquei pensando que é muito pra mim, que pode ser que eu não dê conta, que talvez eu enlouqueça. Fiquei pensando que não sei andar de ônibus nem em São José - quando foi que eu achei que daria conta de fazer isso em São Paulo? Fui preocupada. Não sabia direito como ia chegar lá, sabia menos ainda o que estava indo fazer lá. Mas eu tenho em mim essa coisa teimosa de obrigação - eu assinei a lista, alguém se interessou pelo meu projeto, uma gama de professores ficou feliz porque eu consegui entrar no mestrado mais concorrido do país (sem contar qualquer orgulho por parte dos meus cosanguíneos). Percebi que, de uma maneira geral, abandonar seria uma covardia maior do que a minha covardia inata poderia abraçar. Covardia demais, finalmente.

As pessoas são estranhas. Algumas nem cumprimentam, as outras me param no corredor para perguntar se sou eu que sou orientanda do Agnaldo, se sou eu que estou mexendo com Literatura, que o projeto é muito legal, que o projeto é muito complexo, se eu já li Vicente Del Rio ou a Arquitetura da Felicidade. Tem gente que não pergunta nada, mas diz "que calor" e pega um copo d'água. Aos poucos, talvez, eu pegue o rítmo. Os professores são mais sérios dos que os meus, mas eu simpatizo com eles. Quase todos, pelo menos. A verdade é que a coisa toda me assusta um pouco, ainda, e simpatia e medo são sentimentos um tanto díspares.

 

Fui almoçar na padaria do Benjamin Abrahão - o sonho da minha mãe. Ir comer na padaria do Benjamin Abrahão. E agora ela fica a menos de 500 metros da faculdade. Queria poder chegar em casa e contar pra ela que os pães são todos lindos, tem um cheiro delicioso e algumas coisas nem são tão caras, assim. Também queria contar que um dos professores me indicou um livro logo na primeira aula, sem nunca ter me visto, só por causa do meu tema. E que todo mundo já ouviu falar do meu orientador e vem me perguntar como foi que eu acabei sendo orientanda dele. No final, acabo me sentindo a Ana sortuda do outro blog, com um grande tropeço nessa sorte. É. Talvez isso resuma bem. E talvez seja muito pra mim e eu não dê conta, ou não atinja as expectativas - deles e minhas, mas estou disposta a tentar. No final, eu continuo a cabeça-dura de sempre. =)



Escrito por Ana às 09h20
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Me sinto triste, quase sempre. É uma tristeza inexata, porque me deixa sorrir e brincar, fazer piadas e ver vídeos de humor. Mas é uma tristeza profunda, nostálgica e melancólica, que me tira o apetite e acrescenta uma culpa latente a todos os verbos da sentença anterior. Eu não consigo dormir tranquila, não consigo dormir tranquila há meses. Eu me preocupo com o Leon e a Lua, eu me preocupo com a casa, eu me preocupo com gente que deveria estar se preocupando comigo. Eu me preocupo com tudo. Acordo, olho no espelho: meus olhos estão do tamanho do mundo, abertos, despertos, desesperados.

A quase qualquer momento do dia eu poderia chorar se quisesse. É quase como fazer um daqueles leites compostos instantâneos - colocar no copo, agitar com a colher e tomar. No meu caso, basta que eu feche os olhos, pense numa frase ou numa cena e já sinto a garganta apertada. Eu achava que a essa altura as coisas estariam mais normais, eu estaria animada com o Mestrado na Grande Universidade Pública, ou empolgada em organizar as coisas para o Singular Evento de Setembro. Não. Eu estou assim, do mesmo jeito que estava há um mês atrás - ou há dois. Eu me levanto, tomo café, vejo os e-mails. Pego um livro e leio até a hora do almoço - um livro que não se relaciona sob nenhum aspecto nem com a Grande Universidade Pública e nem com o Singular Evento de Setembro. É assim. A tarde é a hora do dia em que eu consigo viver (porque já era a hora do dia em que eu estava mais distante dela, realmente). Então meus bons amigos vem pra cá, ou vamos pra algum lugar, ou eu descubro alguma coisa na internet se eles estão viajando ou ocupados. Mas a noite...À noite é meu colapso. E eu sinto vontade de morrer, um pouquinho. Mas finjo que não sinto vontade de morrer nenhuma, por alguns motivos: vontade de morrer, tanto quanto chorar, não resolve muita coisa. E ela ficaria possessa se soubesse que eu ando com vontade de morrer. Enfim.

 

A parte de todas essas coisas, ainda tem gente que arranja mais problema pra mim. E problema é uma coisa que eu não ando precisando. Sou muito covarde, no entano, me falta a coragem de dizer para quem é de direito que eu preciso de tempo, de espaço, de paciência. Minha mãe morreu. Ora bolas. Minha mãe morreu e parece que essa frase coordena todos os atos da minha vida, desde então. Se eu comi demais, de menos, se eu lembrei ou esqueci, se eu chorei ou dei risada: minha mãe morreu. Não é uma desculpa, não é um perdão. É apenas o estímulo único, insistente e insuportável ao qual meu corpo responde com suas atitudes a todos os demais estímulos externos desse mundo. Infelizmente, secundários.



Escrito por Ana às 08h48
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Em Cunha. Engraçado como eu tenho essa coisa de achar que não consigo escrever nas cidades grandes. Ora. Muito bucolismo. Muito arcadismo. Muita falta de ocupação, sendo que a pequena cidade está em mim. É sair de casa e eu acho que tenho que escrever - com coisa que não fosse em casa, sempre, que eu escrevo. Enfim. Mania de grandeza, pensando bem, porque aparece na Caras esse pessoal Chico Buarque, Paulo Coelho e Agnaldo Sylva - que escreve em Praga, Portugal, Lugar-Nenhum.

Claro que fiquei deprimidíssima, ontem: fui a Poços. É chegar lá. Pronto. Deprimo. Acontece. Espero que pare de acontecer um certo momento. Antes era a noite. Era anoitecer e eu deprimia. Hoje eu tento me ocupar enquanto escurece - vou ler, estudar, tomar banho. Prender os gatos. Arrumar os cães. Pode ser que chegue uma hora em que eu me ocupe em Poços e pare de ficar pensando no que não adianta mais pensar. Injusto.

 

Tamiris me disse que mostrou o livro pra alguém, eu senti aquela sensação estranha de novo. De vergonha, porque não ficou tão bom, porque não ficou bom em nenhum grau da escala minuciosa e milimétrica das bondades, porque alguém leu o que eu escrevi - é me ver nua, num sentido menos sexual e mais pudoroso. De acalento, porque é pra isso que se escreve, afinal, por mais que sejamos falsos. Escreve-se para alguer ler. Para o alguém dos outros, para o nosso alguém futuro cheio de julgamentos, preconceitos ou inocência. Vai ver um dia eu ainda crio coragem e abro o Word cheia de vontade, cheia de esperança, cheia de coisas bobas/boas/sem importância ou muito úteis para serem transcritas. Escrever talvez seja o que eu menos faço. E o que eu mais gosto de fazer. Minha mãe achava que eu ia ser escritora, tinha jeito pra Diplomata, deveria dar aulas um dia - mesmo dar aulas sendo uma bosta, que Arquitetura tinha muito de mim - mesmo com as minhas neuras. Sinto falta dela me dizendo que eu posso tudo que quiser ou reclamando porque eu quero ir ali ou aqui, porque sai com essa chuva, porque não fecho direito a torneira do banheiro. E parece que agora, de um jeito melancólico e insistente, eu sempre escrevo pra ela. Oh, God.

 

Estou disconexa, hoje.

 

 

E essa vontade latente de fazer tudo ao mesmo tempo?

 

 

1,2,3: Anita-salva-mundo! (com saudações para quem sabia brincar de esconde-esconde).



Escrito por Ana às 12h41
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Tirei as coisas do armário, todas as coisas. Não todas as coisas - deixei coisas o suficiente para aquecer e vestir uma pequena família de órfãos no interior da Somália. Mas eu, como órfã, me sinto no direito de deixar o guarda-roupa cheio de coisas que não servirão para ninguém, apenas para mim. Vão me aquecer e me vestir, de um jeito difícil de explicar. Bastante doloroso, também.

Acontece algo muito simples: eu quero lembrar. Eu quero o cheiro, a cor, os gostos dos dias em que ela estava aqui. Eu quero os dias em que ela estava aqui, todos eles de volta. Eu quero escrever tudo que não escrevi quando ela estava viva, dizer pra ela tudo o que eu não disse e retirar algumas coisas que eu disse, também. Eu quero de volta um tempo que já não me pertence mais, que não pertence a ninguém. Na impossibilidade do retorno, guardo fragmentos, pedaços, absurdos que despertem na minha memória as sinapses mais deliciosas de uma vida.

Morrer é aparentemente algo muito simples, um verbinho deste tamanho de reles segunda conjugação, nem irregular é. Morrer, realmente, é algo bastante regulamentado. Mas isso só nos romances. Na minha pele, a morte dela é uma espécie de ferida. Uma hepatite. Meu fígado não seria o mesmo, nunca mais, mas o problema está todo em outro órgão. Em outros órgãos. Todos eles. Por outro lado, ao contrário da hepatite, eu tenho uma coleção de boas memórias, de fatos, de histórias, de brincadeiras, bobeiras, risadas, toda sorte de coisas maravilhosamente pequenas e simples que preenchem meu espírito com uma alegria que não combina com este pesar infindável.

 

 

Ela não é uma prateleira no armário, a meia dúzia de coisas que eu quis guardar (meia dúzia para ser delicada ou compor com qualquer poesia, porque o número real de artefatos deve ultrapassar as duas dúzias com certa facilidade - mas não soa tão bonito). Ela é tudo e mais um pouco - e reconstruir o "tudo" da minha vida está sendo uma tarefa tão impossível que a única coisa que me faz ter vontade de continuar tentando é a memória dela.

Ah. Que saudade.



Escrito por Ana às 14h47
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